Tuesday, May 5, 2009


 

CRIME NA NOITE ESCURA-71

 

Ferraz da Silva

 

 

   O Rui deitou o fogo a umas ramas de acácia que alguém cortou e inadvertidamente deixou no mesmo lugar. No primeiro dia da primeira vez, chamaram os bombeiros que acudiram prontamente e rapidamente debelaram o fogo que, não sendo coisa de alarmar, corria o risco de se propagar.

 Porém o Rui, que tem zonas do córtex frontal absolutamente danificadas, ou porque não ficasse satisfeito com a rápida extinção das chamas ou porque não tenha atingido a vingança programada, dois dias depois, pela segunda vez, ao passar no mesmo local a caminho de casa voltou a incendiar as ramas de acácia velha já anteriormente incendiadas, mas agora quis a sorte, ou o azar do Rui, que o seu acto fosse observado por um vizinho que o advertiu e denunciou.

 Depois dos bombeiros terminarem mais esta acção de rescaldo dos restos das sobreditas ramas de acácia austrália, o Rui, também vulgarmente conhecido por Xira, ou Chira, confessou o crime e foi levado pela policia para o posto do município e presente ao tribunal de Águeda onde ficou preso preventivamente pela sua acção criminosa.

  Em traços largos foi o que aconteceu e no dia seguinte o jornal nacional de maior circulação deste país, informava, a bem das estatísticas e da eficiente captura policial de foras da lei, que fora apanhado e levado a tribunal um perigoso incendiário de trinta e oito anos de idade.

 Eu conheço o Rui. A bem dizer toda a gente conhece o Rui, ainda bem que ficou na prisão preventivamente, pelo menos terá direito a comer, a dormir, a tomar banho e descansar na tarimba umas boas horas da sesta, gozando o fare niente e o bom trato. O Rui bem precisava de férias, quiçá, as férias duma vida por conta do Estado de direito. E de barriga cheia. Finalmente!

  Numa noite do verão passado, regressava eu a casa no fim dum passeio estival quando ouço aflitivamente a sirene do 112 que se dirigia na minha direcção. Estuguei o passo porque distingui cem metros á frente e na beira da estrada, um corpo estendido. Era o Rui e mal eu cheguei ao local parou junto de mim a ambulância, cujos operadores, depois de verificarem a personagem comentaram que era a segunda vez que o vinham buscar. Vinho? Perguntei. O que havia de ser? E levaram o rapaz mais uma vez quando não dava sinal de voz, naturalmente fingido e desejoso, na sua etérea condição, de dar um tranquilo passeio de automóvel. É natural ter feito sete ou oito quilómetros a pé, no regresso, para gozar este prazer da sua mente afectada, mas que é uma maneira própria de interagir com o meio, isso é verdade.

Á dois anos, como acontece todos os anos, tinha o meu quintal a transbordar de silvas e, lembrando-me que o Rui me tinha perguntado havia pouco tempo se tinha algum biscate que fizesse, chamei-o ao local e propus-lhe o corte das silvas por empreitada. Acordamos o preço, a data e o pagamento, metade a meio do corte, outra metade no fim depois do trabalho feito. Líquidos, só água e ferramenta, a meias.

Era uma manhã de segunda-feira, oito horas, Maio ou Junho, não me recordo bem, quando o Rui apareceu para fazer o trabalho, sem ferramentas e a fumar cachimbo. Que não, naquele dia não poderia ser e metendo os pés pelas mãos na sua irresponsabilidade nascitura, convenceu-me que as silvas ficariam por cortar, não fosse eu tirar-me de cuidados e fazê-lo por mim próprio.

 Mas o Rui tem um nunca acabar de histórias, não sei se alguma com honras de jornal diário como esta, mas sem dúvida todas elucidativas e a atestar a sua falência emocional, os seus descontrolados impulsos e a sua falha afectiva e de razão.

  Não precisamos ir a Descartes, Punset ou Damásio para concluir das deficiências natas do Rui, ampliadas e agravadas pelo meio e ambiente onde se insere a sua participação, afinal, neste espectáculo grotesco do mundo em que vivemos, tão grotesco que o define, num jornal nacional, como perigoso incendiário. Quando afinal, me parece que seja mais vítima que outra coisa, vitima duma sociedade alienada á força do dinheiro, do stress , da agressividade, do individualismo. Vitima duma sociedade dirigida pela especulação desenfreada, pela ganância de elites de malfeitores, caracterizada pela agressividade, falta de respeito para com o próximo, pela falha dum sistema de saúde que não dá ao cidadão comum, hoje o cidadão low cost, o direito á saúde, ao tratamento,

apenas acessível, tal como a justiça , a ricos .

  O Rui, ou Xira, digo-vos eu, não tem, nunca teve, refeição certa. Nunca teve telha segura, nem um apoio, uma mão interessada, nunca obteve, provavelmente, um gesto carinhoso dum familiar ou amigo, nunca foi visto por um psiquiatra ou até por uma instituição estatal que lhe verificasse a saúde do corpo e a saúde da mente. Ao Rui, como a um cão, dá-se talvez um pontapé, um riso irónico, um cobertor e um monte de palha para deitar os ossos. Como pode surgir num noticiário nacional como um incendiário? Um irresponsável, ainda vá, um incendiário, não concordo. Não se poderá perguntar, por outro lado, se os incendiários não somos nós, todos os outros?

 Incendiário para satisfazer as policias que fizeram um bom trabalho ao captura-lo? Incendiário para termos um bode expiatório que nos consola intimamente a substância, nos alivia a alma e satisfaz a agressividade? Incendiário para comodidade dos déspotas e tiranos deste mundo selvagem ?

Serão insondáveis os desígnios da alma humana, hoje largamente identificada apenas com a mente? Não tanto assim, amanhã saberemos, mapeado que esteja o cérebro, as razões que por agora, muita razão desconhece.

 Ainda bem que o Rui ficou em prisão preventiva. Os dias em que lá estiver, tem comida quente, a tempo e horas, em cima duma mesa! Como raramente tem !

 Apesar disso, vale a pena perguntar se num país onde os criminosos não ficam em prisão preventiva, onde os ladrões andam á solta a roubar ainda mais do que roubaram, onde as pressões do poder, politico, judicial, ou económico não se julgam, onde o sentido de Estado se transformou no interesse individual de corruptos e oportunistas, porquê prisão preventiva para o Rui quando apenas precisou desde criança dum psiquiatra ou dum neurologista que lhe acompanhasse os neurónios.

Sem aplausos para o acto em si, preventiva por fogo posto!? Anedótico!

 Em Portugal, Europa, Século XXI. Abril/2009

águasdoluso.blogs.sapo.pt

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UM PASSEIO TERMAL

CRÓNICAS LOCAIS-70  

 PASSEIO TERMAL, LUSO-LONGROIVA

  Ferraz da Silva   No verão de 1902/03 o rei D. Manuel II, então príncipe, passou pelo Buçaco num passeio de estudo e deslocou-se em seguida para Penacova, por Coimbra. O rei tinha a mania de anotar nos seus cadernos de apontamentos as distâncias percorridas e anotou 50,8 Km. N’outro passeio á Serra da Estrela dirigiu-se de Mangualde para o Buçaco e anotou nos mesmos cadernos 140,9 Km e, seguindo do Buçaco para Tancos anotou a distância de 180Km.  Nestes princípios do século passado o Buçaco era uma estância em desenvolvimento acelerado e o Luso recebia muito mais utentes do que hoje apesar das termas se resumirem ao edifício antigo , aquele que veio a existir até 1934. Se nesta época remota as viagens eram difíceis pelas estradas existentes, o caminho de ferro abria as portas da liberdade a muitos citadinos, sobretudo a uma Lisboa habituada a ir ás hortas ou a ir a banhos a Belém, donde vieram muitos dos que engrandeceram as Termas. Cento e sessenta e dois quilómetros de boas estradas separam-nos hoje dumas pequenas termas que se estão igualmente a engrandecer, Longroiva, concelho de Meda, no distrito da Guarda. Vamos a Santa Comba, Mangualde, Celorico, Trancoso, á aldeia medieva de Marialva, muito bem aproveitada para o turismo e num pulo encontramos adiante e á esquerda a cortada para Longroiva, um, dois quilómetros se tanto. É a primeira vez que deixo o rumo de Foz Côa para ir ao coração da aldeia. Na região, as amendoeiras começam a florir e na paisagem agreste renasce esse esplendor do vestido branco e rosa com que se ornamenta a natureza na hora da criação. Logo após uma pequena subida ziguezagueando, surge o velho edifício termal, logo seguido do novíssimo e ainda pintado de fresco, estabelecimento renovado. Á frente, uma placa indicativa do apoio recebido da CEE e levantando a vista, acima  das palavras, vislumbra-se a silhueta austera do velho castelo ao lado da torre sineira da igreja matriz. Longroiva é uma aldeia interior, perdida entre Trancoso, Meda, Foz Côa, Castelo Rodrigo e Almendra mas é, pelas suas águas termais, uma princesa da região. Sulfurosas, são conhecidas desde a ocupação romana do território, serviram estes e o reino e, passando por vicissitudes várias, estão hoje ao serviço da república. Não há um hotel, não há uma pensão, os termalistas alojam-se em casas particulares e os vizinhos deslocam-se das suas próprias terras em vai vem mas, graças á perspicácia dos naturais e ao apoio declarado da sede do concelho, construíram um estabelecimento termal novo de se tirar o chapéu, cómodo, qualificado, dotado do moderno equipamento de termas clássicas e preparado para assumir variadas vertentes.  Diz na placa que custou cinco milhões de euros com a ajuda da CEE e da Câmara, o dobro portanto, anunciado para a requalificação do Luso. Chegado aqui, devo acrescentar a título de comparação, que recentes intervenções em termas custaram ou vão custar 80 milhões de euros em Vidago, 60 milhões de euros no Vimeiro, 30 milhões de euros em Monte Real, 10 milhões de euros em Unhais da Serra, 15 milhões de euros na Cavaca (Sabugal), etc, etc…É público. O caso leva-nos pois a questionar mais uma vez e com legitimidade o que se vai fazer no Luso com 3 milhões de euros (dois milhões, palavras do administrador, se se conseguir fazer com esse dinheiro) investimento que, soube-se também, é em exclusivo da Sociedade das Águas. O que é no mínimo curioso!  Pois eu proponho-me antecipar o cenário termal do Luso, seguindo á regra o projecto apresentado pela concessionária e seu parceiro que, pela amostra, pouco parecem perceber do negócio das termas. Basicamente é assim: a) as termas clássicas, isto é, aquilo de que o Luso vive desde o séc. XIX e XX, vão ficar reduzidas á actual buvete termal uma redução para um terço em área. b) a actual zona dos tratamentos e banhos , portanto o corredor que liga  a entrada á buvete, vai ser desmiolado e ali  construídos dois mega SPAs ( ?) em 480 metros quadrados, que é a área deste espaço. Ridícula a palavra mega e SPA ! c) o edifício da fisioterapia vai ser dividido em duas partes , uma parte para continuar a fisioterapia, outra parte para instalar uma clínica dentária sem quartos, os doentes terão que se hospedar  no grande hotel, presume-se… Pessoalmente tudo isto me parece um absurdo, tudo me parece uma brincadeira, tudo leva a crer que não há consciência do que se está a fazer. Reduzir o espaço das termas clássicas é reduzir automaticamente a maior parte dos aquistas no Luso, que foram pouco mais de mil em 2008 e, já ouvi a excelentes especialistas que, unicamente no espaço da buvete, poucas hipóteses existem de atender mais de 500 utentes. Reduzir o espaço termal a umas termas que já são das mais pequenas do país é claramente encolher a estância e logo, dizer não ao segmento tradicional dos frequentadores, aqueles que, por se hospedarem em qualquer lado, sempre foram o fermento da vila.  Além disso a qualidade, o conforto, os cuidados, o atendimento, irão agravar-se e a recuperação para os três mil aquistas que o Luso ainda não há muito tempo tinha, vai ser uma miragem, pois irá acontecer o contrário. Em relação ao SPA, anunciado como mega SPA, é do conhecimento geral que em 480 m2 isso não é possível, portanto aqui, ou trata-se de falta de conhecimentos ou de engano deliberado dos promotores. Pois se a concessionária vendeu os terrenos e construções onde o prometeu fazer, como o pode fazer agora? Só readquirindo aquilo que vendeu! E que clientes para o SPA que vai começar dum zero perante um termalismo clássico que potencialmente atinge um horizonte de 3.000/4.000? Com um vinha o outro e com o outro, quantos vem??? De resto, chamar SPA ao que está desenhado no projecto só por brincadeira se pode levar a sério! Quanto á terceira parte, a clínica dentária, vai nascer segundo o mesmo projecto, em metade da fisioterapia. Mas se aquele espaço já é de si acanhado para as funções que tem, como vai suportar ainda uma clínica? Clínica pressupõe doentes. Onde se vão instalar? No Hotel. Concluímos que os prováveis clientes serão oriundos dum segmento alto da população, por isso serão seleccionados e poucos, não havendo qualquer garantia de que venham. Não que estejam a mais, mas porque não substituem os tradicionais, que animam a terra. Uns e outros são precisos mas uns são certos, outros não. Tudo continua a indicar que a concessionária não percebe ou não quer perceber o problema do Luso e vai tentando furtar-se, com o apoio da Câmara da Mealhada, ao cumprimento das suas obrigações. Toda esta tentativa de meter o Rossio na Betesga não será mais que liquidar as Termas? Desenvolvimento, isso, seguramente não parece e lavar a cara, não resolve. Perante este cenário que pode ser destruidor para o Luso a Câmara da Mealhada, representante dos eleitores e dos interesses do município o que faz? Em vez de se colocar ao lado dos seus interesses, exigindo o cumprimento da concessão termal, opta por estar conivente com os objectivos da concessionária num protelamento constante das questões e em mini projectos que atrofiam a estância. O Presidente da edilidade socialista pode dizer, como já disse, que nada percebe de Termas, mas não se pode escudar nesse desconhecimento da forma leviana que faz, para se furtar a incómodos. Se não sabe procure quem saiba! Não se pode calar politicamente por 60,70,ou 80 mil contos que o Luso lhe arranjou em Contrexeville e aguardar impávido e sereno pela morte definitiva da estância termal. Pela via politica, ou pela via judicial, há que colocar em causa as intenções da concessionária e pôr em causa, se necessário for, a concessão. Doutro modo, não se pode aceitar! Não faltarão interessados se a Água do Luso vier um dia a concurso público!!!  Quando voltei de Meda e de Longroiva, 324 quilómetros depois, trazia comigo os parabéns a municípios como Meda, Sabugal, Nisa, ou Covilhã, onde se luta pela defesa das terras, das pessoas, dos seus interesses, ao contrário do que acontece na Mealhada concelho onde a luta diária é pelo comodismo, pela inveja, pela destruição, pelo saloismo , pela conservação do lugar.   E como o rei, que mal teve tempo para governar o seu malfadado reino, anotei nos meus cadernos estas mirabolantes promessas e a incúria duma autarquia que em vez de zelar pelos interesses dos seus cidadãos  os ataca como principais inimigos !  

 

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O MORRO ALBERTINO

  O MORRO ALBERTINO

   Ferraz da Silva      

Tenho que começar por pedir perdão aos meus leitores por amiúde voltar aos assuntos do Luso mas o que é facto é que isto, não parecendo, também é município da Mealhada e os problemas são tantos que, mesmo que o não quisesse, acabaria sempre a retornar, ás vezes a repetir as questões, de tão pertinentes que são.    Do que tenho dito e digo, este último episódio da chamada Quinta do Alberto, a que chamarei agora morro Albertino por obra da sua compra, é o exemplo claro do erro e da asneira, já não lhe vou chamar casmurrice da Câmara da Mealhada, que há sete anos não o quis negociar discutindo condições e agora o comprou não sabemos porque razão, mas sabemos, isso sim, que o adquiriu depois de lavar a cara á Fonte S. João, muito mal lavada por sinal, melhor figura fariam quietos e sossegados para depois da compra efectuada, então sim, como sempre disse a esse casmurro que é edil e presidente do município, curioso da politica e da gestão, então sim, repito, proceder á requalificação de toda a zona central do Luso com pés e cabeça como deveria ter sido.  O arquitecto que executou o projecto sabe disto tão bem ou melhor que eu e sabe, também melhor do que eu, quem lhe transmitiu as ordens de ora faz ora não faz com que se viu confrontado. É que há gente que parece o feijão-frade, figura que procurei sempre subtrair á minha postura erecta, embora reconheça liminarmente, sobretudo em ano de aniversário de Darwin, a nossa parentela antepassada, quer queiramos quer não hoje devidamente identificada e incontestável! Preferiu então o edil rodear-se da burricada politica que constitui a câmara actual e aí está o resultado, mais de um milhão de euros gastos inutilmente numa pseudo requalificação que emparedou causticamente a nascente num buraco de granito cuja origem, de verdade, não sabemos. Da região é que não é, nem é por estas bestas de pedra supostamente transmontana que rompe a água vinda das profundezas da serra. Não se sabe se a obra já está ou não acabada, de qualquer modo, a destruição já começou, tão frágil e tão fraca é a aposta.  Não é preciso ir mais longe para afirmar que em matéria de termas, não é qualquer amador da politica oriundo das ferrovias que entende do negócio, isto não é malhar em ferro frio não, isto é gente, são pessoas, é qualificação, é atendimento, educação, esmero e conhecimento, coisas que não se compadecem com a curiosa gestão de merceeiro a que a Câmara da Mealhada habituou os seus munícipes, uma mercearia de enganos e de tachos num poleiro difícil de deixar á democracia, supostamente existente.   Foi aliás com esta irresponsabilidade e ligeireza que a mesma Câmara enterrou as termas e não tenho dúvida em afirmar que o primeiro coveiro politico do Luso foi o presidente da Câmara da Mealhada, hoje e mercê da sua inábil postura politica, um aberrante apoiante da concessionária, apostada, mais do que nunca e mercê da conjuntura desfavorável, em folclorizar investimentos que, tanto quanto é do conhecimento público, ainda não passaram dos seiscentos mil contos. Ora, com esta verba, só a ignorância ou uma atitude colaborante, pode fazer acreditar que se faça alguma coisa do que já devia estar feito, conforme o prometido, o pomposo e retumbante Luso 2007, é bom não esquecer, que incluía, entre outras coisas, um Spa. Pergunto-me como é que uma autarquia que tem nos seus quadros políticos uma expert em economia pode defender investimentos com estes trocados, a não ser, é evidente, que pretenda ajudar os concessionários a enganar o Luso, o município, a região, o país. Não vou mais perto do que isto porque considero a evidência tão grande que não se pode mascarar a não ser assim, doutro modo não é concebível interpretar as promessas porque são totalmente irrealistas. Tal qual como esse Luso de 50 milhões para os anos trinta ou quarenta, encomendado como plano estratégico por quem não espera nem estará então, para o fazer cumprir. Brincamos a três, quatro, cinco mil euros por mês? Haja deus!  Tudo isto não passa do espírito de excelência e de especulação que levou o mundo ao estado negro em que se encontra, o mesmo espírito obscuro, para não lhe chamar outra coisa, que tem permitido as sucessivas vendas da cervejeira e por arrasto, das águas do Luso, com a obtenção de suculentas mais valias com valores acrescentados que passam por pouco mais que o nível da manutenção ordinária. Especulação pura e simples, ganhos ilícitos com a valorização suposta de patrimónios sucessivamente vendáveis entre especuladores, bancos e empresas que conduziram ao descrédito, ao desemprego e ás dificuldades presentes e futuras de médio prazo. O mundo acorda, ainda bem, mas parece que a Câmara da Mealhada continua a dormir apesar da presença, como disse, da suposta expert em economia que neste caso concreto dos investimentos nas termas, devia saber ler isto como quem lê as primeiras letras do alfabeto. Não sabe, dorme ou, responsavelmente, colabora politicamente? É um péssimo sinal que nos faz perguntar se está para defender os interesses da Câmara e do município, ou quais outros poderá querer defender!!! É uma pergunta pertinente que fica, agora que a nossa Câmara também parece ser o pai natal dos políticos desempregados.   Digo isto com o á vontade com que sempre estive na política, eu que nunca me considerei politico mas sim cidadão conjunturalmente num lugar político, interessado em lutar pelos interesses, neste caso do município, e não por lugares. E digo-o também porque como cidadão julgo ter o direito e o dever de dar a minha opinião, quanto mais não seja para colaborar no esclarecimento de comportamentos políticos tão incompreensíveis como inaceitáveis. E digo-o também porque gosto de escrever, porque gosto de pensar, de antecipar os cenários e partilhar com os meus leitores, e sei que são alguns apesar da longueza das croniquetas, as minhas interrogações. Não quero nem gosto de molestar as pessoas e os lugares que desempenham em termos políticos, que é do que falamos, mas gosto de as ajuizar e a estas, que tão mal geriram os interesses da minha terra o Luso, os interesses do meu município, a Mealhada, os interesses do meu país, de forma permanente, até caustica, no bom sentido. Gosto de saber porque é que as coisas acontecem.  Compreendo que este é um pequeno fio duma meada muito maior onde, neste assunto termal, começa por entrar o actual presidente da república, primeiro-ministro ao tempo da privatização que, inadvertidamente, permitiu a venda quase ignorada das águas do Luso por meia dúzia de patacos, mas por isso mesmo julgo que os temas devem ser tratados e transmitidos, para lição e conhecimento dos vindouros. Aqui, não se pode tratar do fartar vilanagem sem que a história, até das pequenas coisas como as nossas, não fique de algum modo ao alcance de futuras investigações ou para desapaixonadas leituras exteriores.   Quanto ao Senhor Presidente da República, já lhe transmiti por carta as minhas críticas e preocupações. Já me respondeu, mas isso, já não é o tempo actual.  

 PS- Outra questão sobre um problema levantado nestas páginas. Agora, que está em obra a zona dos viveiros florestais, imaginem o novo edifício da Câmara , enquadrado no velho chafariz  artisticamente aproveitado, de frente para uma praça larga  e abrangente ocupando toda a zona envolvente do antigo posto da policia de trânsito .A meu ver, como então transmiti, uma obra soberba e um pontapé de primeira classe no urbanismo da cidade. Imagine o leitor, pense e conclua se o melhor local para gastar mais uns milhões de euros será um canto escondido entre o caminho-de-ferro, as casas, e os caboucos da ex corporativa com ligações subterrâneas e á luz da iluminação artificial. Se isto não valia  no mínimo, uma auscultação pública…!!!!  Não há democracia quando o poder, como neste caso, ignora a vontade de quem vota. È a minha maneira de ver !!!!                  

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Thursday, February 19, 2009

 

FUNDAÇAO  LUSO


 Se existem equipamentos comuns neste município onde se alia a qualidade da estrutura á qualidade ambiental, o simpático café do lago do Luso, com desenho do arquitecto Luís Neto é, em minha opinião, o primeiro de todos. Nem vale a pena adjectivar com mais adornos a minha afirmação pois a constatação do que digo é simples, está ao alcance de qualquer um fazê-lo.

 Por mim, adoro usufruir do conforto do seu sossego, do contexto paradisíaco onde se insere e porque não dizê-lo, até da qualidade do café.

 No verão, apoio importante á pequena piscina municipal, no inverno, sobretudo em dias de sol, um sítio soberbo para se gozar um momento de prazer, de tranquilidade, de libertação, um sedativo eficaz para o retorno do equilíbrio emocional que a sociedade actual alimenta com ídolos e deuses de pés de barro, o poder, o ‘tacho’, o dinheiro, agora e lamentavelmente para muitas vítimas, o pão nosso de cada dia, o emprego.

 É aqui neste pequeno lugar, um absoluto refúgio adjacente e simultaneamente inserido na floresta do Buçaco que acabo de ler a notícia da criação da Fundação Luso, com a qual o criador pretende, diz a notícia, dinamizar o Luso e redondezas na procura dum centro de excelência.

 Confesso que nunca gostei desta palavra excelência ou da mesma excelência aplicada ao homem, quando, ao fim e ao cabo, os mesmos excelentes não deixam de ter em comum com os chimpanzés mais de noventa e oito por cento dos seus genes, mas, para além disso, para mim a palavra é um sinónimo de superioridade, arrogância, novo riquismo, irracionalidade e egoísmo e é utilizada pelas pessoas de sucesso ou seja políticos, gestores, administradores financeiros, todos pagos a preço de ouro e que, mercê da especulação, corrupção, roubo até em muitos casos, levaram o mundo á falência onde está atolado. È fruto desta excelência ultra liberal de economistas e financeiros oriundos da escola de Chicago que agora, debalde, se procura controlar.

  Também o Luso e as suas águas têm sido objecto de sucessivas vendas e de obtenção de mais valias, alavancagens (?), de modo que nunca poderemos saber as verdadeiras intenções desta Fundação Luso antes que se veja concretamente a sua actuação no terreno. Não se pretende dizer com isto que seja um veiculo apenas de recolha de benefícios fiscais, já que, sendo honestamente contextualizada e seriamente conduzida poderá eventualmente ser benéfica e positiva, mas não se pode deixar de sublinhar que as garantias face ao comportamento anterior da concessionária, são curtas. É que a sua actuação nos últimos anos no que diz respeito ao Luso e ás Termas tem sido má demais para que a freguesia ou o concelho estejam satisfeitos.

Basta relembrar alguns actos que colocaram as Termas no estado comatoso em que está:

a canalização da água que a leva por quatro quilómetros do Luso á Vacariça até ser  engarrafada para venda ; o esvaziamento da vertente das termas que passou em pouco tempo dos três mil aquistas para os mil da época passada; o desemprego dos naturais substituídos por ucranianos precários; o términus prático da animação termal; a venda do grande hotel e dos anexos onde , prometiam, nasceria o SPA ; a saída da sede da empresa dos antigos escritórios e a sua transferência para Lisboa; as promessas incumpridas donde ressalta o projecto Luso 2007, uma obra descaradamente prometida a toda a edilidade do anterior mandato e não cumprida; o adiar permanente da recuperação das termas, com promessas constantes de clínicas, fisioterapia, novos tratamentos, com um investimento de 600 mil contos, que, evidentemente, estão muitíssimo longe dos valores necessários para fazer seja o que for e colocar o Luso outra vez no mapa.

 Quem conheceu e viveu as Termas do Luso, e há ainda muita gente neste país que o recorda com saudade, encontra-as hoje irreconhecíveis, transformadas num tosco arremedo daquilo que foram.

 A Fundação corre pois, por falta de garantias e credibilidade, o risco de ser apenas aparência, mais uma promessa entre tantas, mas se o não for, óptimo, ainda que não seja por esta via que se resolve o problema do Luso, porque as Termas, essenciais para a vila e município precisam de ser renovadas, actualizadas, modernizadas, precisam do spa, de novos tratamentos, de mais pessoal, de abertura permanente. Oxalá a Fundação não seja mais um engodo para a não execução do essencial!

 A Fundação do senhor Ponte e dos seus patrões estrangeiros tem pois que mostrar aquilo que vale e o senhor Ponte deixar duma vez por todas de enganar o Luso, o município e a si próprio. E o Estado. Só depois, como S. Tomé, alguém acreditará nas promessas.

 Entretanto, como estão as coisas, só podemos afiançar que as Termas possuem na concessionária e na colaboracionista Câmara actual, os seus melhores coveiros e no Estado, o leviano dono da concessão, a omissão consciente ou não, do incumprimento das clausulas do contrato.

Penso que se vivêssemos num verdadeiro estado de direito, a concessionária já tinha sido mandada com Deus. Das Termas e das nascentes que lhe estão associadas! Aqui, neste alfobre de almirantes, generais, mordomias, compadres e amigos, porém, nada acontece.

  Fico-me por aqui, com a garantia absoluta de que se vierem beber o café á esplanada do lago, donde me saiu esta verve, não se arrependerão!

  Aqui, o prometido é devido e como centenários profissionais de Termas, sabe-se dar e receber. Como para tudo na vida este é um compromisso sábio que as excelências pesem embora o chimpanzé deviam cumprir. É que nos quase dois por cento que nos diferenciam, sem dúvida que a maior de todas é a fala, e dentro da fala, a maior de todas é a palavra. Luso, 18/Fevereiro/2009                

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Friday, November 21, 2008

O ESTRANHO CASO

CRÓNICAS LOCAIS-62

 

  Ferraz da Silva

 

 O ESTRANHO CASO DO CAMPO DE FUTEBOL-1

 

   Não vou pedir ajuda ao famoso detective Sherlock Holmes nem á minha querida amiga Júlia, a criminóloga, que adoro cada vez mais, mas vou eu próprio deslindar, se é que isto tem deslindação (?), este insólito caso do campo de futebol a que chamei estranho, porque na realidade se trata, não de crime premeditado, mas de comportamentos afectivos, sentimentais e de casmurrice endémica a que a rotina conduz com o á vontade e abuso puro e simples dos poderes públicos instalados, como não podia deixar de ser, os eleitos dinossáuricos, mais bem dito apodrecidos, a que nos vamos habituando. Será que só vão de cadeira? Vamos ver!!!!!

 Corro o risco, sempre o mesmo, perdoem-me os leitores que não sendo muitos são bons, corro o risco, dizia, de ser acusado de repetitivo, cáustico, teimoso, mas gente mais teimosa que Sherlock Holmes ou o próprio Hércules Poirot eu não conheço, eles que, liminarmente, conseguem levar sempre a água ao seu moinho, coisa que eu, é notório, não tenho a capacidade de fazer, embora descasque a batata com as melhores intenções dentro do melhor espírito civico e tendo sempre na perspectiva os interesses do município. Na minha óptica, indiscutivelmente!

    Eu julgo mesmo que um homem sem opinião é como uma mulher sem atractivos e por isso insisto neste vício herdado do Bairro Alto, quando aproveitava algumas horas que me sobravam do trabalho diário para ajudar na revisão das provas do Diário de Lisboa e juntar assim uns cobres para ver umas revistas no Maria Vitória com a saudosa Ivone Silva e as pernas da Marina Mota, então uma garota. Era no tempo em que um artigo da Seara Nova podia por o Chiado em alvoroço e as pessoas desapareciam apalermadas com a chegada da pide, escondidas no primeiro patamar ou vão de escada, não fosse o diabo tecê-las e metê-las na ramona. Pela mesma época aqui no município, alguns travestidos faziam um pretenso jornal contestatário onde imperava mais a maledicência que propriamente a consciência politica, todo ele feito de empirismo e de inveja. Não teve grandes consequências, como não podia deixar de ser, viu-se.

    Mas chega de retórica e vamos aos factos:

    Apesar de mealhadense assumido, sou burriqueiro, como todos sabem e compreensivelmente, neste momento conheço melhor os problemas donde estou todos os dias que do resto do município, por tal motivo que me perdoem se a questão tem a ver mais uma vez com o Luso, embora eu considere que se trata dum caso de todos.

   Nesta deserdada terra existe um centro de estágios que foi construído objectivamente como estrutura de apoio ao turismo e um campo de futebol que era pertença do clube local, que a Câmara, mercê de dívidas assumidas á segurança social pelo dito grupo, acabou por comprar. Esclareço que não fez como noutros casos em que munícipes oportunistamente ensaiados pelo poder instalado, oferecem terrenos á câmara para que depois ela faça estádios, não, não foi assim, foi de facto pelo assumir de compromissos financeiros que a associação desportiva não tinha hipóteses de solver.

   Se fossem o Sherlock ou a querida Júlia, facilmente chegariam a esta primeira conclusão a que eu, não sendo nem uma coisa nem outra cheguei, mas basta andar algum tempo pelos meandros politiqueiros para se aprender este catecismo que faz parte integrante do abecedário da carreira. Tal como o lambe botas!

  Acontece que a Câmara, que trata do centro de estágios, abandonou o campo do pobre clube que passou a ser o pior do concelho e onde disputam todos os anos um campeonato qualquer, sujeito mesmo a que os organismos da bola o impeçam, por falta de condições. Eu falo um pouco desprendido do assunto pelo simples facto de não ser grande adepto deste desporto câmara-dependente, pois ainda hoje não quero entender porque se distribui dinheiro público, que é nosso, pelo futebol e não se distribui o mesmo dinheiro, nosso, pelas associações de cultura, mas o caso, verdadeiramente estranho do campo de futebol, tem a ver com a utilização do centro de estágios.

  Acontece que estranhamente, ao Clube Desportivo do Luso está vedado o acesso ao novo campo relvado, o dos estágios, enquanto por ali treinam semanalmente, quando querem, os atletas do Desportivo da Mealhada e os mercenários do Futebol Clube da Pampilhosa, originando uma inaceitável situação discriminatória entre associações concelhias. Isto é verdadeiramente um atentado aos mais elementares direitos do cidadão municipal que, ninguém tenha ilusões, amanhã acontecerá em qualquer outro local do município sobre qualquer outra questão. Escandaloso!!!

   Foi perante este estranho fenómeno do campo de futebol que indaguei e vim a saber que a ordem é transmitida ou retransmitida por um sujeito de Arganil, desconhecido no lugar, ex-prestador de serviços á Câmara, hoje edil numa estranha promiscuidade politica, e confirmada pela presidência da Câmara, apostada politicamente, como tenho dito muita vez e com razão, em enterrar as termas do Luso e apagar, em termos práticos, a própria vila. Indagando e reflectindo, não encontrei razões para que isto aconteça, como não encontrei razões para que o dito Centro de Estágios não tenha uma gestão capaz de o por a funcionar eficazmente.

    No inquérito levado a cabo e das diligências empreendidas, conclui igualmente que a nossa edilidade tem dificuldade em sair dos próprios aposentos e a prova disso é que no período das minhas indagações encontrei o plenário em reunião entre a meia noite e a uma hora da manhã em plena obra da Fonte de S. João, supostamente ás escondidas, tal como encontrei um vereador que não identifico para não molestar ninguém, em alegre patuscada com um engenheiro camarário, um autarca da freguesia, trabalhadores municipais e alguns munícipes, todos também num convívio que me deixou perplexo sobre a desvirtuada democracia e a relação promíscua entre políticos eleitos, responsáveis autárquicos com poder de decisão, subordinados e cidadãos, situações que podem induzir interpretações dúbias para os envolvidos e para os próprios partidos políticos que representam. Não que das minhas demandas tenha retirado alguma conclusão, fique claro, mas tão só pelo aspecto, em minha opinião, pouco digno e salutar para quem gere órgãos e dinheiros públicos. Á mulher de César, não basta ser séria, muito menos na coisa pública…

  Como se vê, não precisei de ir mais longe para provocar um terramoto de descobertas que poderia continuar se me não faltasse espaço e a paciência do jornal e dos leitores, para me aturarem. Os reformados, com muitas horas de vazio, podiam ser muito úteis, podem crer!

Por absoluta falta de espaço fico por aqui, mas voltarei em breve ao mesmo tema, pois este caso do estranho caso do campo de futebol, como percebi, tem muito mais que contar.

 É que não nos podemos fiar apenas na gazeta estalinista que nos impingem mensalmente, paga pelo nosso bolso!!!   

PS- Sobre o meu artigo anterior , devo informar que os generais, entre reserva e activo, são duzentos e sete.

Para um efectivo total de 40.000 homens, significa que há 5generais por cada 1.000 soldados. Ora como em cada 1.000 soldados há no mínimo 150 oficiais e sargentos, elevará a média para 6 generais por 1.000 soldado rasos. Julgo que continuamos seguros! Seguríssimos!!!! Não temos é este rácio no ensino e na saúde, o que é pena!!!!

Luso, Outubro,                                                    2008 Mealhadatemas.blog.com  


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Tuesday, September 9, 2008

O COLAPSO DE UM VERÂO

         

 
O COLAPSO DE UM VERÃO

 

Ferraz da Silva

 

Este ano termal é para esquecer. Concessionária, Câmara e Freguesia deixaram o Luso ao abandono e a época balnear arrasta-se dolente e fraca. Vai acabar a contento dos autarcas que tudo fizeram para que isto acontecesse por não possuírem capacidade nem vontade e muito menos respeito pelas pessoas que, tal como eles, não recebem o dinheiro ao fim de todos os meses quer faça chuva ou sol mas, pelo contrário, tem que lutar arduamente pelo seu ganho e pelo satisfazer dos seus compromissos.

Um amigo meu aconselhou-me há dias a não escrever, não me meter mais nisto, a não criticar mais, a calar-me e deixar correr o marfim. Para não me chatear! Escutei-o mas não concordei. Pelo contrário, julgo que ao cidadão cabe um papel importante no contributo que possa dar no sentido de questionar, criticar ou participar numa democratização da democracia que neste momento não existe, já que o momento eleitoral se transformou num momento de enganos que tem por fim a tomada do poder e não o serviço a prestar á sociedade que dizem pretender servir.

Faço-o com os meios que melhor sei utilizar e faço-o porque aqui nasci, aqui vivo, aqui, quem sabe, hei-de ficar. Mas também pelo município, que me merece preocupação e respeito. Julgo que é exactamente por estar demasiado calado que o Luso e outras freguesias, não obtêm benefícios como deviam da Câmara, no caso concreto em apreço, o turismo que está em colapso.

Porque faz parte administrativa dum concelho que não entende, não quer entender o que é a freguesia do Luso em termos de potencialidades na sua actividade principal e quase única, que é essa, a turística, a hotelaria, a restauração. Nem a autarquia Junta de Freguesia, constituída pelos maiores idiotas (políticos entenda-se) do concelho, que não possui capacidade nem conhecimento para forçar uma estratégia de melhoramentos constantes, no sentido de trazer alguma coisa para a actividade e consequentemente para as pessoas que ainda vão sobrevivendo na terra a lutar contra a corrente por uma causa que se está praticamente a perder.

Á Câmara da Mealhada assaco, como tenho sempre assacado, a maior responsabilização no que ás termas diz respeito e um novo exemplo dessa total irresponsabilidade está na obra da remodelação da fonte, mas não da zona central da vila como era necessário. Ao ter optado por obras absurdas que não servem a ninguém e ao encaixotar a fonte em granito, pedra que não sendo da região, não tem grande cabimento, a câmara da Mealhada mais não faz que deitar dinheiro ao ar, mantendo o problema da zona central da vila. Pode alguém receber comissões da compra da pedra, pode-se perguntar, mas a verdade é que engranitaram uma fonte que, feita na presidência de Emidio Maranha, talvez fosse a mais conseguida das remodelações por que tem passado.

O conteúdo do projecto inicial apontava concretamente para a chamada quinta do Alberto e isso foi desenhado e apresentado em ante projecto e era de facto aquilo que o Luso precisava e precisa, mas, por questões umbilicais da câmara ou do seu presidente e também porque deixou de existir um vereador do Luso, facto derivado da mesma ignorância politica da junta de freguesia, o projecto foi alterado para a pior solução. Para agravar a situação, com uma total falta de sensibilidade e respeito para com a mesma freguesia, programaram tudo para o verão, época em que as pessoas do Luso têm possibilidade de ganhar o seu dinheiro.

Nada me admira desta Câmara, já que também a própria Mealhada costuma ser objecto dos seus congestionamentos gástricos, quer nos conflitos que não sabe resolver com os festejos carnavalescos, criando-os, quer no caso dessa excelente obra que é o Hospital da Misericórdia que tanta discussão deu por oposição autárquica, quer ainda nos arranjos do campo de futebol pagos com as promessas dum segundo estádio de futebol para a Pampilhosa. Tudo isto é ridículo e em tudo isto impera a falta de sentido do poder público e falta de equilíbrio, discernimento e capacidade.

Já o caso da actuação da Junta de Freguesia do Luso é diferente, não pode agir em directo porque não tem orçamento nem competências para obras de grande porte, mas pode e deve pressionar de forma consciente e constante a Câmara e os próprios organismos do Estado, no sentido de conseguir trazer á localidade algumas mais valias. O que não faz.

Mas foi o que aconteceu com o pavilhão, o parque de campismo, ou o centro de estágios, não por pressões da Junta de Freguesia que em vinte e cinco anos que tive de assembleia municipal nunca ouvi o seu presidente dizer fosse o que fosse, mas por outras vias e outros órgãos que felizmente conseguiram levar a sua avante e fazer dotar o Luso e simultaneamente o turismo, dessas estruturas. E poderíamos falar duma pousada de juventude, dum museu de hotelaria onde se guardassem as antiguidades do Luso e do Buçaco, dum campo de golf (já existiu um na cruz alta) , dum ordenamento da fonte de S. João , capaz de acabar  com a linha de engarrafamento que é vergonhosa para as termas, de pensar numa entrada com dignidade para a  vila , para não repetir a barragem , o spa , ou um arranjo decente da avenida do castanheiro que envergonha os autarcas locais.

A Junta de freguesia, mercê do acordo firmado há cerca de quinze anos entre a Câmara e a concessionária das águas, no mandato de Rui Marqueiro, recebe anualmente uma verba de dez mil contos, hoje suponho que cerca de doze mil. Feitas as contas, terá recebido já cento e cinquenta mil contos. Pergunto: onde está uma obra no Luso que se veja e que corresponda á envergadura daquela verba???

Neste caso particular do Luso, quer Câmara quer Junta tem de mudar de mentalidade.

O Luso não precisa de cantoneiros de excelência, mas sim de gente nova, dinâmica, com responsabilidade e massa critica capaz de pegar de frente os problemas da terra e são muitos, e esforçar-se por os resolver acabando com esta rotina de mediocridade politica de palmadinhas e de brutalidade a que, adormecidos, vamos dando guarida. Sei que posso incomodar alguma gente ao dizer isto, mas nunca fui pessoa de meias palavras para me escusar a dizer duas verdades.

É que assim, por esta via, tenham a certeza, o Luso fica cada vez mais morto! O que é mau para todo o município!

Luso, Setembro, 2008        

Mealhadatemas.blog.com/lusotemas.blog.com             

 

 

 

 


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Thursday, August 21, 2008

BENS QUE SE DELAPIDAM

OS BENS QUE SE DELAPIDAM

Ferraz da Silva

No contexto europeu do negócio das águas, a água do Luso tem uma pequena dimensão e ocupa um lugar insignificante no ranking das ofertas correspondendo a um mini circuito de distribuição em termos de continente, praticamente inexistente. Isto, que equivale ao nosso pequeno tamanho como país e á nossa fraca capacidade como penetradores de mercados, não deixa de ser um negócio aliciante em termos de rendimento auferido e exportado para os detentores do bem, tanto ou tão pouco que as sucessivas mãos por onde tem passado o tem mantido e desenvolvido, explorando e exportando os lucros duma riqueza que, como sabemos, lhes caiu nas mãos mais ou menos por engano, distracção ou desconhecimento. Como consequência o negócio das águas que começou pelo negócio das termas acabou por ser desvirtuado e o negócio original acabou por ser esmagado pelo segundo e pelo apoderar das matérias-primas e dos meios de produção por parte do capital. Em tempos antigos, apenas cobiçados e distribuídos pela especulação nacional, hoje, á mercê dos grandes grupos continentais e mundiais que se apoderam da riqueza esteja lá onde estiver através dum capital especulativo que não tem rosto nem grei.

É assim que se assiste á simples gestão de expectativas continuamente geradoras de mais valias que são de imediato e sucessivamente aproveitadas para realizar capital num frenético ciclo do mão em mão.

É assim que uma riqueza nacional, a água, que poderia ser um motor de desenvolvimento dum pobre lugar e dum pobre município contribuindo para o bem estar e melhoria das condições de vida dos seus naturais, acaba por ser um veículo de enriquecimento de uns poucos travestidos, mercenários sem rosto nem identificação.

Para além da atávica incapacidade política caseira de colocar o património ou os bens nacionais ao serviço das pessoas está a postura de subserviência tradicional, conivente ou não e a pequenez do nosso território ao qual se alia, talvez como em nenhum outro lugar da Europa, a pequenez da nossa mentalidade.

O resto, é a estranha realidade do mundo de hoje, o domínio do mais forte, do menos escrupuloso ou do mais esperto, um ciclo de irracionalidade ou mesmo da bestialidade que atravessa o globo, onde o absurdo e a negação de valores essenciais da humanidade são pisados, esquecidos e substituídos pelo egoísmo duma cultura individual dirigida pelo engodo, pela cegueira, pela mentira, pela apropriação indevida das riquezas e pela imposição do low cost como resposta a uma nova massificação do homem. Uma regressão ética e moral na civilização do mundo ocidental e uma Europa burocrata e incapaz a desafiar o impossível estão a provocar uma rotura e uma derrocada ao nivelar o mundo pelas suas piores referências deitando fora uma aprendizagem e um saber que séculos de luta e experiência custaram a adquirir e conduziram esse mesmo mundo ocidental a níveis de bem estar e de equitatividade nunca atingidos.

Estou a rabiscar estas linhas que hei-de mandar logo que possa ao jornal,
em plena Praça Navona , em Roma , diante de três monumentais fontes de Bernini,  no dia 2 de junho , feriado nacional , dia da implantação da republica italiana , o nosso  cinco de outubro  e depois de assistir ao tradicional desfile militar , desta vez com a inédita curiosidade de o norte   do país se fazer representar  por um embaixador,  sinal dos tempos conturbados que aí temos e seguro na minha mão um grosso volume dum livro da livraria feltranelli cujo título é , mil locais  do mundo que  obrigatoriamente deve  visitar na sua vida. E cá está, em três ou quatro páginas seguidas, o nosso Portugal que, ao contrário do que se possa pensar, também tem lugares eternos a visitar. Vou citá-los: o Museu Gulbenkian, em Lisboa, a vila de Óbidos, a cidade património da humanidade, Évora, a Pousada de Stª Isabel, em Estremoz, a Vila de Sintra e a Mata e Palace do Buçaco.

Não mais. São os nossos sete lugares entre mil em todo o mundo, que merecem figurar neste compêndio turístico de primeira qualidade. Podemos aceitar que este não é único critério, mas é, face aos mil recursos apresentados em todo o conjunto da obra, um critério de alta qualidade e que para nós, oriundos dum pequeno local dum pobre município , ainda mais pobre de gente que de bens patrimoniais , satisfaz plenamente pela justiça da escolha apresentada  confirmando  de algum modo aquilo que com insistência  temos defendido.

A Mata Nacional do Buçaco, recurso turístico de primeira grandeza, a riqueza patrimonial água, motor de desenvolvimento duma área termal e não só e o recurso gastronómico de qualidade que é o leitão poderiam fazer do pobre município que somos, um município forte e rico, capaz de proporcionar aos seus residentes uma qualidade de vida e de bem estar invejável e auto-suficiente.

O património, por mais valioso que seja, não se auto transforma, se não existirem pessoas minimamente capazes de entender os fenómenos que se desenvolvem á sua volta. Essa massa critica para questões tão reais e pertinentes como estas, não existe e isso, paga no seu todo, o município. E paga bem!!!

Roma, Junho, 2008 mealhadatemas@blog.com

          

 

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Friday, May 16, 2008

HISTÓRIA

                

HISTÓRIA BURRIQUEIRA

 

 

    Em 1950 ainda existiam burros no Luso e no Buçaco em plena actividade empresarial, isto é, fazendo o transporte de clientes para a serra, do Buçaco para as Almas, para a Cruz Alta ou para qualquer outro percurso combinado entre ofertante e utilizador.

   Cavaleiro sentado na macieza dumas gastas albardas, o burro conhecedor instintivo do caminho e o burriqueiro atrás, de vergasta na mão, tocando a azémola ou sacudindo as moscas procurando transmitir ao ocasional ocupante o prazer de sentir as rédeas sobre as orelhas do asno imaginando-se veloz na garupa dum puro sangue ou a com a leveza dum Aladino sobre crinas enfeitiçadas cavalgando para um etéreo harém. O marketing não é descoberta de espertos dos nossos dias que apenas o elevaram á condição da cátedra para sacar uns cobres, pois como se vê, um simples e modesto burriqueiro do século passado pode testemunhar a necessidade, a que agora chamam ciência, de vender ilusões. Pelo melhor preço.

   Ir ao Palace Hotel custava cinco escudos, á Cruz Alta sete e quinhentos e á fonte do Castanheiro com paragem no garoto para beber um copo de água fresca e volta pelo Lusitano, ficava por vinte e cinco tostões. Para famílias, a viagem podia ter um desconto consoante as burras requeridas e as burricadas, brincadeiras mais abrangentes sujeitas a imprevistos e demoras, tinham uma taxa fixa um pouco mais elevada, mas tudo dependia da habilidade em fazer, para um e outro lado, um bom negócio.

  À noite, o Zé Posta recolhia as burras no Luso d’Além numas arcadas antigas debaixo da casa própria e fazia contas aos ganhos, á despesa dos animais, ao sustento, ás doenças e era depois da refeição comida á pressa noite dentro que as sacudia, limpava e deixava ficar prontas para na manhã seguinte reiniciar o negócio com a barriga cheia, estacionadas na avenida, acima das onze bicas.

    Coexistiam com um fotógrafo á la minuta na mesma fonte de S. João que fazia os sábados e domingos no Buçaco, por isso não é raro encontrarmos fotografias de burricadas, gratas recordações dos nossos avós, bisavós e veraneantes.

   No monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo, ainda hoje existem estes velhos fotógrafos que são museus vivos dum passado não muito longínquo que nada tinha a ver com a rapidez dos nossos dias nem com a proliferação de aparelhos que surgiram depois desde os kodakes às câmaras digitais, aos próprios telemóveis e ás filmadoras de mão. Não há muito tempo ali me fiz fotografar com elegante companhia ao estilo antigo a quem dei fotos e chapas em preto e branco que hoje, por curiosidade, gostaria de ter.

   Coexistiam ainda no negócio dos transportes uma dezena de táxis (quem se lembra dum fiat balilla?) e não consta que existissem desavenças entre a competitividade duns e doutros, sinal de que os tempos corriam melhor nas termas e de que a mata do Buçaco era também um lugar de passagem, mas também motivo para estadia prolongada.

  Não precisei na exactidão da data em que nascem estas burricadas, mas não será difícil imagina-las em paralelo com o desenvolvimento termal e parecem ser um produto pioneiro do nosso turismo, o que significa, traduzindo para linguagem actual, um dos primeiros recursos entre a diversidade que faz hoje a oferta do pacote da actividade. Podemos rir destes primórdios recentes mas de facto em toda a primeira metade do século passado há noticias do recurso um pouco por todo o lado e ainda hoje restam nalguns lugares, por reactivação em experiências interessantes, algumas delas catalogadas como turismo de aventura, se bem que tenha sido sempre uma aventura andar de burro. Para além da teimosia, nos dias que correm o burro burro é uma raridade, embora o burro metafórico seja mais comum que a legitima e nos puxe, teimoso, para trás. Há ainda muitos.

  Ora um dia, nesses conturbados anos de cinquenta do século passado, regressava do Buçaco o Zé Posta com um par de burros no fim de mais um dia de jornada. Encarrapitava-se em cima da beltrana uma burra mansa, serena, tão habituada aos mimos do freguês como á chibata do dono ou ás ferradas das moscas e segurava pela trela o várzeas, um burro nascido debaixo da ponte, o que se pode dizer um burro burro de todo, de nascença e de ensinanças, á maneira da azémola do prodigioso Sancho Pança e de seu amo o senhor D. Quixote para sermos mais verdadeiros. Anoitecia. Na sineta do Convento deram sete badaladas finas, arremessadas em bruto como Frei Thomas das Mazelas gostava de fazer durante as guerras liberais, costume depois continuado por sucessivos guardas do mosteiro ciosos da tradição, desde que houve a confiscação dos bens em 1834 salvo erro.

   A mata estava em silêncio total como naqueles fins de tarde aprazíveis, quase divinos em que podemos escutar o nada que nos envolve como se não existíssemos. Nem o próprio mundo tem existência real nesses solenes momentos em que se ouve apenas o silêncio em toda a redondeza e as árvores são sentinelas mudas dos espectros soturnos duma tarde em queda lenta. Apenas o arre burro do Zé cortava de vez em quando a solenidade divina e o enxoto era empurrado pela aragem com a suavidade dum sonho. Foi neste marear sereno e cálido que se precipitou o acontecimento, pois dá-se que á mansidão da beltrana se opõe a brusquidão lazarenta do outro e quando desciam ao campo da bola para atalhar o caminho não é que o várzeas dá de zurrar e escoicinhar a beltrana num pinoteio de palco com cagatório de birra!!!!??? De imediato, o Zé, apertando nos calos a rédea que se soltava, foi no desequilíbrio, tombou no chão e por pouco não foi arrastado estrada abaixo a morder o pó nas tamancas. A custo, sozinho, puxou a burricada para casa com a vergasta em sarilho num badanal dos infernos.

  Tão maltratado que nem lhe apeteceu comer e ao outro dia, não de burra, mas de táxi, foi, por insistência da mulher, á endireita de Paraimo para lhe pôr duas costelas no sítio, tanto quanto o manso asno, por simpatia do outro, lhe pôs abaixo.

 -E se não vinha tão depressa, disse a curandeira depois duma massagem e de o entrapar em panos e aguardente, amanhã não se podia levantar.

   Deitado por alguns dias sobre uma arca de broa antiga, esticou-se quanto pode para endireitar a ossatura, descanso que a dureza da vida cedo atirou para a necessidade do trabalho que o verão não se podia perder ao sabor dos luxos da doença, sobretudo de quedas de burras , o pão nosso de todos os dias !

   Mas foi porém quando se queixou á santinha da aspereza e das dificuldades, da numerosa família e do azar que lhe batia á porta que a mulher, condoída de tanta mazela e chorosa lamuria o mandou em paz sem lhe cobrar um tostão.

  E o Zé, reconhecido, puxando da humildade e da gratidão que lhe perpassou pela alma, sinceramente, disparou:

  -Quando for ao Luso, pergunte pelo Zé da Posta, que lhe dou uma barrigada de burro como nunca levou na sua vida!!!!!

  Maio,2008                                    mealhadatemas@blog.com/lusotemas@blog.com

 

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Friday, May 2, 2008

TERMAS

         
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                     Ferraz da Silva

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                   DE VOLTA ÁS TERMAS DO LUSO -56

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    Passou-se há quarenta anos talvez, quando não havia febre pela televisão e as tertúlias de jovens se juntavam todos os dias á noite para fazer teatro. Eram peças clássicas, sobretudo comédias ou farsas e um dia, por acidente, uma revista. Entre Salve-se Quem Puder ou Alto lá com Isso, ficou com o segundo nome e por empréstimo chamou-se oficialmente Costa do Sol em Festa, uma revista de Cascais que já tinha passado pelo crivo da censura e estava portanto ao abrigo do lápis vermelho do santo oficio salazarento que tinha tanto de engano como de ser enganado.

   Claro que o texto era o nosso, escrito em noitadas de arrebatadas ceias tiradas em casa deste e daquele mas sobretudo do ensaiador, discípulo da Corina Freire. Um bloco de papel numa das mãos, um naco de chouriça, uma bebida alcoólica e a boa disposição donde disparavam quase instantaneamente as piadas, os quadros, os intérpretes.

   No seu desenvolvimento, entre danças e cenas, a coisa tinha um compere á maneira do Salvador no Parque, um bife, o Santos e era numa destas mudanças de número quando eu cruzava rapidamente o palco com um balde de cal na mão direita e um pincel de cerdas na outra, que a Maria Aurora me perguntava com cara de admirada:

   -Olha lá Manel, onde é que vais com tanta pressa?

   E respondia eu com a solícita prontidão dum trolha enfarinhado:

   -Olha, para cumprir as leis da Câmara pintei as casas todas do Luso, agora vou pintar a Câmara, que bem precisa!!!!

   Perante o texto simples desta passagem de urgência, espécie de 115, desabava a rir, da plateia á geral, o Teatro Avenida e semanas depois o Teatro Messias, sem que nós próprios descortinássemos o motivo da pilhéria, a não ser no inesperado desconcerto da sumaríssima acção.

 E só no fim do gargalheio é que o senhor Silva, sentado no banco do piano de cauda, levantava a cabeça, dava o dó e prosseguia a dedilhar a música…

  Quarenta anos depois, comparativamente, a Câmara voltou a assumir esta figura pateta do olha para o que digo não para o que faço, ditado antigo destinado a tipificar o desenfreado apetite de alguns monjes e abades, passe o exagero, quando se refere ao Luso e ao Buçaco como a sala de visitas do concelho turístico para logo abandonar a sala em termos práticos, quanto toca a trabalhar pela defesa e desenvolvimento dessa riqueza e património. Podemos desculpar aos autarcas a distracção, a ignorância, a incompetência, mas, reconhecendo embora o nervosismo e a desorientação por que passam, de hipocrisia politica já chega!!! Estamos fartos!!!!

   Não vou pormenorizar o caso da obra na fonte de S. João que podia ser requalificada em trinta dias e não em duzentos e setenta se a autarquia soubesse o que anda a fazer e tivesse algum respeito pela actividade de quem vive disto, mas sim desse outro caso que foi o assentar da administração da concessionária das águas no banco do diálogo, não pela acção da Câmara da Mealhada, mas pela acção dum grupo de pessoas das termas que vêm a sua vida a andar para traz, precisam de viver e por isso de lutar pela reanimação das mesmas e da terra, quando os eleitos, quer os locais quer os municipais, o não sabem fazer.

    Estes pontos nos ii são essenciais para se perceber mais uma vez a qualidade de quem comanda os destinos políticos do município, (e da freguesia!) de novo numa postura negligente e absolutamente nula no que toca á defesa dos interesses vitais do mesmo. Claro que não me movem as pessoas enquanto pessoas, apenas como actores e interpretes da farsa politica á qual nós, cidadãos, assistimos e a qual devemos, pela cidadania que nos cabe, analisar e criticar.

  Na minha perspectiva, os novos factos traduzem-se assim:

  Depois de no mês passado sermos brindados com o plano estratégico dum Luso Inova camarário de 50 milhões de euros para satisfazer contínuos vazios políticos de consciências angustiadas, eis que é anunciado um mês depois, por força da pressão activa do mesmo grupo de pessoas junto do Ministério da Economia, o falado Luso 2007, desta vez pela mão apressada da SAL numa parceria com uma empresa de clínicas dentárias, donde nascerá, eventualmente, uma hipotética empresa termal onde a autarquia Câmara, curiosamente, não tem assento nem voz, colocando-se mais uma vez de lado, silenciosa, muda, a ver passar os comboios…Com este executivo podia ser de outra maneira? Dramaticamente, não!

  Não faço ideia se o parceiro apresentado pela SAL é bom ou mau, se tem experiência em termas e Spa’s ou não, mas tem-no, isso é líquido, em clínicas dentárias luxuosas. Vamos esperar três meses por projectos prometidos !

    Registe-se no entanto que o investimento anunciado de três milhões de euros (investimento total confirmado em entrevista ao MM pelo nº 2 da concessionária de seiscentos mil contos antigos) numa área de mil e quatrocentos metros quadrados, para fazer e meter um novo centro de bem estar ou spa e uma clínica, onde já estão umas termas e um bloco de fisioterapia á espera da modernidade que a concessionária lhe não tem dado, será suficiente? (Para que melhor se possa comparar a dimensão dos números, lembremos que a Câmara se propõe fazer uns novos paços municipais por dez milhões de euros o edifício apenas, a preços actuais))

 Será que a nova empresa termal a constituir (?) vai abrir-se a novos investidores?

 Será que depois da concessionária ter vendido o hotel e os terrenos que destinava ao SPA, irá readquirir o mesmo hotel e recriar o seu próprio parque hoteleiro?

 Será que as novas (?) estruturas darão acesso pela via económica a toda a gente?

 Será que a autarquia Câmara aproveitou para exigir garantias escritas? Claro que não. Mais uma vez politicamente apalermada, pôs-se de lado, riu-se, bateu palmas e continuou a não obter nenhum compromisso escrito de mais estas promessas, bem pelo contrário, no dia imediato apressou-se a desembargar umas obras que tinha mandado embargar á concessionária, não se sabe se para propaganda politica e juntou ao acto a ignorância de declarar que este projecto, que ainda nem sequer existe e que prevê um investimento de três milhões de euros, é melhor que o seu plano estratégico do Luso Inova que previa, disseram-no há poucos dias publicamente com claras intenções propagandísticas, um investimento de cinquenta milhões de euros!!!

  Saberão do que falam??? Saberão para quem falam? Com investimentos da concessionária das termas, para lá dos três milhões, não se pode contar . Faltam quarenta e sete milhões para o Inova. Quem vai continuar ou completar o pomposo plano estratégico do Luso? A Câmara e o seu executivo, tão falho de estratégias como de ideias, já encontrou algum parceiro?????

 

 PS- Parabéns sim ao grupo de cidadãos. Sem o poder negocial nem o poder de dissuasão da autarquia, não só os obrigou a correr aflitivamente até ao Ministério da Economia como os obrigou a abrir um canal para o diálogo. Porque afinal, eles têm medo como se demonstrou facilmente! Um medo directamente proporcional á inaptidão política da maioria da Câmara!

Luso, Maio, 2008                             lusotemas@.com

 

  

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Tuesday, March 4, 2008

TERMAS DO LUSO


TERMAS DO LUSO

  Ferraz da Silva

  Quatro hotéis, várias clínicas de estética, spa’s, ginásios, dezenas de estabelecimentos comerciais, centros de investigação, parque industrial, mil empregos, saúde, beleza, bem estar, enfim cinquenta milhões para investir, se aparecer por aí um rei Minos, lembram-se do rei Minos… ???
  A propósito, ainda este ano me mascarei pelo natal e o meu neto comeu-a quando debaixo da barba branca, seguro da mística figura arremedei a voz grossa dum fadista de Lisboa e disparei, entrando de rompante  na sala de jantar :
   -Ah!… Ah!… Ah!… chegou o pai natal !!!!!!
 Olhou silencioso, depois admirado, espantado e finalmente encantado! Entre respeito e medo, não me reconheceu! Tem três anos …!  Não me desmanchei, mas  perante um sapatito pequeno,  piccolo, piccolo, que nem se via debaixo das bugigangas, relembrei os meus  magros tempos de criança e murmurei para comigo:
   -Não há fome, que não dê em fartura!!!!
    O Luso está na mesma.
   -Não há fome que não dê em fartura!!! Diz-se…
    E dei comigo a pensar:

  - …se até aqui era a concessionária das águas a enganar o Luso e o Concelho com as suas  promessas, agora é um executivo da Câmara politicamente alucinado que se junta ao coro, tentando vender aos eleitores a mesma cartilha que há vinte anos lhe vem sendo impingida pela concessionária , isto é,  sonhos, mentiras e  incumprimentos!

  Numas termas que, de degradação em degradação, caíram em agonia permanente, a fartura é tanta que o pobre não só desconfia, não acredita…!  Nem concessionária nem câmara têm crédito para oferecer seja o que for porque a verdade é que já não se pode acreditar   em quem não nutre o mínimo  respeito pelo factor humano dirigindo-lhes  sucessivas e  insultuosas lérias.

  O administrador sal que esteve na apresentação privada da estratégia encomendada pelo município para o Luso , pediu com todo o á vontade a paciência das pessoas para o seu próprio plano do Luso 2007 que já devia estar executado e nem sequer projecto tem. Segundo relata a imprensa que esteve presente, metendo as mãos pelos pés pediu ao Luso que se tranquilizasse, dando conta que a empresa não perdeu de vista a restruturação do Luso-cujo projecto previa o inicio das obras em 2007-pedindo paciência á população e tranquilizando-a ao dizer que brevemente o projecto começará a ser desenvolvido.
  É curioso que se tenha esquecido de que o plano apontava para 2007 como ano de inauguração e não do começo de obras, e é tanto mais sintomática esta afirmação na medida em que não se acredita que o administrador não saiba a calendarização dos compromissos da sua empresa . Também não se sabe se aquele administrador sabia ou não sabia, ele não o disse, se naquele momento a empresa ainda era propriedade da Newcastle , ou se já era   da Heineken, pois acabara de ser transaccionada mais uma vez, por tal motivo não chegaremos a saber em nome de qual empresa falava e prometia e não acreditamos que a  distraída Câmara da Mealhada o não soubesse. Soubesse ou não, calou.  É preciso dizer basta a políticas de branqueamento quer de incapacidades , quer de incompetências ou de preparativos de futuros actos eleitorais.
   Numa leitura transversal a vinte anos de promessas feitas, é legitimo concluir que se tratou de mais uma mistificação desta vez com a conivência e apoio duma autarquia que não entende nem defende os interesses do município. Não é que o plano estratégico não seja necessário , neste capitulo a câmara anda atrasada quatro anos, desde que lhe foi sugerida a urgência dum  plano e duma nova empresa para as termas, porém não é dum plano irrealista e megalómano que se precisa ,mas dum plano exequível, razoável, com alicerces, sustentação e credibilidade.
   É mais que oportuno saber até onde vai o apoio da concessionária á construção de quatro novos hotéis, se há bem pouco tempo vendeu o Grande Hotel que era um dos marcos da hotelaria do centro do país  e lhe pertencia ! Para quê mais quatro hóteis se a capacidade hoteleira instalada está longe de ser ocupada a cinquenta por cento ? Quem  delineou a estratégia conhece  a  realidade das termas do Luso ? Parece tratar-se duma brincadeira , não das brincadeiras de carnaval a que estamos habituados, mas  coisa mais séria e responsável !
   A Câmara da Mealhada, em termos políticos absolutamente ignorante e desnorteada em relação ao Luso e a uma politica termal, tenta lavar as mãos que tem completamente sujas por incapacidade na obrigação de fazer cumprir o plano Luso 2007, comprando ela própria uma estratégia para a qual não tem competência suficiente enquanto a concessionária da água de mesa for a mesma concessionária das termas e não definir ela própria até onde vai a sua intervenção, com quem, com que abertura , com que estrutura ou com que parceiros ,já que por ela própria também é há muito tempo evidente que não quer , não sabe, não lhe interessa nem   pretende intervir nas termas  .  Isto, que é tão claro como a água, para a Câmara da Mealhada é chinês, e tanto mais chinês desde  que em termos políticos se vendeu em definitivo pelos tostões litros.
  Se a concessionária queria intervir nas termas, não tinha vendido os terrenos para onde  projectava a modernização. Não tinha cedido o hotel nem deslocado o seu apoio administrativo para Vila Franca de Xira. A concessionária quer apenas vender água e levar os lucros  para fora do município, não quer mais nada.
  Para os sucessivos proprietários, umas modestas termas perdidas num cubículo da europa, internacionalmente desconhecidas, penduradas em negócios do liberalismo selvagem em que a desregulamentação e a impunidade dominam, servem para alguma coisa? Não pondo sequer a hipótese da sua sobrevivência, concluem que se isso não dá uns milhões, fechem-se. Depois, acabam por saber que é nestas termas que está pendurada a concessão da venda da água de mesa e aí, travam, mandam remendar o telhado, substituir três ou quatro banheiras partidas e não fecham a porta. Porque não podem. Têm medo. Pelo que se vê, sem razão, mas têm mêdo !
 E nós, nós autarquias, nós ministérios, nós governos, não temos uma concessão para discutir ? Ou nem aquilo que é nosso sabemos defender ??? Quem lucra ?????
  Na minha opinião, de positiva, apenas a presença da CCRC, disposta, com o quadro de apoio existente, a colaborar. Mais claro que a presença  não vejo como, mas será que os projectos , como se ouviu, aparecem ? Ou será sempre e só o escandaloso golf ao lado dos carris  e do barulhento nó ????
   Também como mera opinião, os autarcas  deviam ter a honestidade política suficiente para reconhecer os seus condicionamentos, demitindo-se, dando assim lugar a eleições antecipadas capazes de gerar, no menor espaço de tempo, um executivo capaz de perceber o sítio onde vive e aproveitar as oportunidades que surgem..
  Quanto ás termas, não há ninguém que as viva que não saiba, até empiricamente, dizer como começar. SAL e Câmara é que não querem entender.  Estranha cegueira !
Nervi,Fev.2oo8                                                                       lusotemas.blog.com

Posted by peter in 19:31:04 | Permalink | No Comments »