CRIME NA NOITE ESCURA-71
Ferraz da Silva
O Rui deitou o fogo a umas ramas de acácia que alguém cortou e inadvertidamente deixou no mesmo lugar. No primeiro dia da primeira vez, chamaram os bombeiros que acudiram prontamente e rapidamente debelaram o fogo que, não sendo coisa de alarmar, corria o risco de se propagar.
Porém o Rui, que tem zonas do córtex frontal absolutamente danificadas, ou porque não ficasse satisfeito com a rápida extinção das chamas ou porque não tenha atingido a vingança programada, dois dias depois, pela segunda vez, ao passar no mesmo local a caminho de casa voltou a incendiar as ramas de acácia velha já anteriormente incendiadas, mas agora quis a sorte, ou o azar do Rui, que o seu acto fosse observado por um vizinho que o advertiu e denunciou.
Depois dos bombeiros terminarem mais esta acção de rescaldo dos restos das sobreditas ramas de acácia austrália, o Rui, também vulgarmente conhecido por Xira, ou Chira, confessou o crime e foi levado pela policia para o posto do município e presente ao tribunal de Águeda onde ficou preso preventivamente pela sua acção criminosa.
Em traços largos foi o que aconteceu e no dia seguinte o jornal nacional de maior circulação deste país, informava, a bem das estatísticas e da eficiente captura policial de foras da lei, que fora apanhado e levado a tribunal um perigoso incendiário de trinta e oito anos de idade.
Eu conheço o Rui. A bem dizer toda a gente conhece o Rui, ainda bem que ficou na prisão preventivamente, pelo menos terá direito a comer, a dormir, a tomar banho e descansar na tarimba umas boas horas da sesta, gozando o fare niente e o bom trato. O Rui bem precisava de férias, quiçá, as férias duma vida por conta do Estado de direito. E de barriga cheia. Finalmente!
Numa noite do verão passado, regressava eu a casa no fim dum passeio estival quando ouço aflitivamente a sirene do 112 que se dirigia na minha direcção. Estuguei o passo porque distingui cem metros á frente e na beira da estrada, um corpo estendido. Era o Rui e mal eu cheguei ao local parou junto de mim a ambulância, cujos operadores, depois de verificarem a personagem comentaram que era a segunda vez que o vinham buscar. Vinho? Perguntei. O que havia de ser? E levaram o rapaz mais uma vez quando não dava sinal de voz, naturalmente fingido e desejoso, na sua etérea condição, de dar um tranquilo passeio de automóvel. É natural ter feito sete ou oito quilómetros a pé, no regresso, para gozar este prazer da sua mente afectada, mas que é uma maneira própria de interagir com o meio, isso é verdade.
Á dois anos, como acontece todos os anos, tinha o meu quintal a transbordar de silvas e, lembrando-me que o Rui me tinha perguntado havia pouco tempo se tinha algum biscate que fizesse, chamei-o ao local e propus-lhe o corte das silvas por empreitada. Acordamos o preço, a data e o pagamento, metade a meio do corte, outra metade no fim depois do trabalho feito. Líquidos, só água e ferramenta, a meias.
Era uma manhã de segunda-feira, oito horas, Maio ou Junho, não me recordo bem, quando o Rui apareceu para fazer o trabalho, sem ferramentas e a fumar cachimbo. Que não, naquele dia não poderia ser e metendo os pés pelas mãos na sua irresponsabilidade nascitura, convenceu-me que as silvas ficariam por cortar, não fosse eu tirar-me de cuidados e fazê-lo por mim próprio.
Mas o Rui tem um nunca acabar de histórias, não sei se alguma com honras de jornal diário como esta, mas sem dúvida todas elucidativas e a atestar a sua falência emocional, os seus descontrolados impulsos e a sua falha afectiva e de razão.
Não precisamos ir a Descartes, Punset ou Damásio para concluir das deficiências natas do Rui, ampliadas e agravadas pelo meio e ambiente onde se insere a sua participação, afinal, neste espectáculo grotesco do mundo em que vivemos, tão grotesco que o define, num jornal nacional, como perigoso incendiário. Quando afinal, me parece que seja mais vítima que outra coisa, vitima duma sociedade alienada á força do dinheiro, do stress , da agressividade, do individualismo. Vitima duma sociedade dirigida pela especulação desenfreada, pela ganância de elites de malfeitores, caracterizada pela agressividade, falta de respeito para com o próximo, pela falha dum sistema de saúde que não dá ao cidadão comum, hoje o cidadão low cost, o direito á saúde, ao tratamento,
apenas acessível, tal como a justiça , a ricos .
O Rui, ou Xira, digo-vos eu, não tem, nunca teve, refeição certa. Nunca teve telha segura, nem um apoio, uma mão interessada, nunca obteve, provavelmente, um gesto carinhoso dum familiar ou amigo, nunca foi visto por um psiquiatra ou até por uma instituição estatal que lhe verificasse a saúde do corpo e a saúde da mente. Ao Rui, como a um cão, dá-se talvez um pontapé, um riso irónico, um cobertor e um monte de palha para deitar os ossos. Como pode surgir num noticiário nacional como um incendiário? Um irresponsável, ainda vá, um incendiário, não concordo. Não se poderá perguntar, por outro lado, se os incendiários não somos nós, todos os outros?
Incendiário para satisfazer as policias que fizeram um bom trabalho ao captura-lo? Incendiário para termos um bode expiatório que nos consola intimamente a substância, nos alivia a alma e satisfaz a agressividade? Incendiário para comodidade dos déspotas e tiranos deste mundo selvagem ?
Serão insondáveis os desígnios da alma humana, hoje largamente identificada apenas com a mente? Não tanto assim, amanhã saberemos, mapeado que esteja o cérebro, as razões que por agora, muita razão desconhece.
Ainda bem que o Rui ficou em prisão preventiva. Os dias em que lá estiver, tem comida quente, a tempo e horas, em cima duma mesa! Como raramente tem !
Apesar disso, vale a pena perguntar se num país onde os criminosos não ficam em prisão preventiva, onde os ladrões andam á solta a roubar ainda mais do que roubaram, onde as pressões do poder, politico, judicial, ou económico não se julgam, onde o sentido de Estado se transformou no interesse individual de corruptos e oportunistas, porquê prisão preventiva para o Rui quando apenas precisou desde criança dum psiquiatra ou dum neurologista que lhe acompanhasse os neurónios.
Sem aplausos para o acto em si, preventiva por fogo posto!? Anedótico!
Em Portugal, Europa, Século XXI. Abril/2009
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