VIAGEM A CONTREXEVILLE
Ferrraz da Silva
Alugamos uma carrinha toyota hiace, velha, usada, experiente, metemos as malas, boa vontade, a carta de chamada, era Novembro e fomos, fomos por aí acima á voz do comité de geminação irmanados no gosto pelo desconhecido e no desejo de dar vida ás palavras de amizade que o tempo vinha semeando por todo o lado. Estava fresco o 25 de Abril, perto a cegueira do 24 que ainda trazíamos pesado na mente e Contrexeville, dois mil e cem quilómetros, era perto, não era nada, era ali.
Em Valhadolid, uma hora da tarde, estacionamos na sombra duns salgueirais na margem do pisuerga, estrada antiga, desembrulhamos do papel vegetal um leitão assado oferecido pelo Pedro, amarelo, morno, fabrico matinal, trazido pelo Carlos Alberto que viajava mais cómodo e seguro no xantia da presidência, acompanhando o cortejo á distância, espera aqui espera acolá, de pronto socorro ou carro vassoura em caso de urgência. Como se fosse uma segunda via da excursão que se juntava para guardar, comer e dormir. De tempo a tempos, quilómetros a quilómetros!
Passamos Irun á tarde e em Bordeux-Cestas era já noite, ao fecho da cozinha, a primeira via já lá estava, foi a correr que nos sentamos, 2ª via, na sala de jantar e tragamos desconfiados o dinner francês da cadeia do campanile. No escuro, noite de breu, ás apalpadelas encontramos os quartos empoleirados numa varanda comprida donde tombavam de manhã gerânios vermelhos e cor-de-rosa. Viemos a ver que eram todos iguais depois duma noite de zuuns de camions na auto-estrada girondina.
Eram seis, já a viagem continuava pela A 10 na direcção de Paris, por Poitiers, Tours , Orleãs . Depois, haviamos de fazer isto mais vezes.
Foi quando atestamos o depósito do gasóleo, adiante do rio loire, que demos conta da fragilidade dos quatro pneus recauchutados da carrinha, descoberta pelo Tony uns dias antes em Vila Nova de Poiares por pouco dinheiro num rent a car clandestino, adaptada ás exigências do nosso magro orçamento feito com poucos pós do dito comité, do turismo, da freguesia, da câmara e do nosso.
Quatro mil quilómetros ida e volta valiam a pena, pensávamos, no propósito duma visita á terra longínqua dos povos geminados que já por duas vezes tinham estado entre nós com excursões de quarenta pessoas, uns até tinham estado em minha casa, sem que nós conseguíssemos, retribuindo, colocar o pé na Lorraine, lá no leste, quase Alemanha dentro. Já outros lá tinham ido, é certo, mas mais em representação oficial, que outra coisa não era que atavio de autarcas carentes de purgatório político.
Coçamos o cabelo na insegurança das lonas donde sobressaiam uns gastos atados de arame, mas nada havia a fazer senão continuar, pé no estribo e fé em Deus, costumávamos dizer uns aos outros num alívio de salvação de aflitos, um grito nacional de epidémicas aventuras, santos e arcanjos pregados de olho em nós, portugueses sem rumo em procissão sem velas. Ou de pneus sem piso, simplesmente.
Íamos a esquecer, França central adentro na direcção de Troye e de Chaumont, a própria careca dos pneus, quando o Júlio , de braços á janela, rompe aos gritos , parem, parem, a porta vai a cair… e caiu mesmo logo adiante quando encostamos a hiace numa borda da auto-estrada e a inércia a desprendeu. Uff !
Meteu-se nos gonzos na primeira área de serviço e lá se atou com uns arames e cordas para seguir viagem aconchegada á ferrugem que entretanto, alertados, íamos descobrindo a par e passo no habitáculo do transporte e nem queríamos acreditar!
Conteve-se a velocidade não fosse o diabo tecê-las, aconchegamo-nos mais entre as encomendas que levávamos para uma exposição que iria haver no casino local e porque o frio é perro e amargo na transição do Outono numa toyota velha sem ar condicionado, embrulhamo-nos em cobertas de artesanato que levávamos para venda na mostra da nossa estada, juntamente com um discurso em francês que ninguém queria fazer.
Foi depois do almoço numa área da shel que se fizeram os telefonemas familiares. Chora daqui, ri acolá, cada um aliviou a família do que tinha a aliviar, mas o Manuel, já cheio de saudades por um dia fora de casa e de algum salpicão defumado que trazia entalado na garganta, lamentava-se á mulher, choramingando:
-Isto é tudo muito lindo mulher, é tudo muito bom, a comida é boa… com muitos molhos, mas passa-se muita fominha…!!!!
E foi a rir a bandeiras despregadas perante a ingenuidade do exagero que nos metemos de novo ao volante e seguimos, agora sim, até Contrex onde fomos recebidos principescamente pelo comité local, comemos de facto uma boa refeição francesa, acompanhada com bom vinho de Bordéus tudo comme il faul e dormimos por lá em casa de cada um quatro ou cinco noites.
Nos dias seguintes, entre recepções, exposição, visitas ao gigantesco engarrafamento da água, a estruturas municipais, e uma noite com merenda na associação dos portugueses, cumprindo o programa elaborado, demo-nos conta da riqueza da pequena mairie (câmara municipal) de Contrex que tinha nessa altura milhões de contos (francos) para gastar em obras e tomamos conhecimento e mais que isso, consciência, dos dois ou três tostões que a sociedade das águas local entregava á mairie por cada litro de água vendido. Uma renda certa tipo torneira num crescendo anual de movimento exponencial.
Estava lançado o isco e foi porque nos ficaram a morder o corpo e a mente com a noticia dos tostões litro (não se lembram dos seiscentos escudos em duas prestações de trezentos?)
que recebe hoje a Câmara da Mealhada a importância que recebe por cada litro de água vendido pela concessionária, fruto do contrato conseguido pela firmeza e argúcia do presidente de então, Marqueiro, pois foi destas viagens que se desenvolveu a ideia e se reivindicou e conseguiu o acordo que hoje vigora. Acordo que não teve nada a ver com quem o veio a assinar, que não mexeu uma palha para que isso acontecesse. Acordo derivado sim das viagens no âmbito da geminação Luso-Contrexeville , que hoje beneficia o município da Mealhada, é bom registar, para quem não sabe e que se traduzirá actualmente em cerca de 70/80 mil contos ano. Coisa que a autarquia devia tornar pública no seu boletim de propaganda oficial e não faz, prefere esconder.
Há dias esteve entre nós Simone Paulmier e o marido Michael Paulmier, que foram, enquanto responsáveis no Comité de Geminação, os impulsionadores das relações que se mantiveram durante anos e mereciam, nesta sua derradeira visita ao Luso, que amam, ser recebidos doutra maneira. Pelo menos da maneira com que sempre, fosse quem fosse, nos receberam na sua terra!
E se não fosse por mais, pelos três tostões por litro que o município recebe que passaram, inquestionavelmente, por ela, Simone.
Mas somos pobres e mal agradecidos!!!! Ás vezes, mal-educados!!!!
De quelque façon , je vous remercie, pour moi meme et pour toutes les autres ..
Au revoir, Simone.
Luso , Novembro,2007
lusotemas.blog.com