Thursday, November 22, 2007

VIAGEM A CONTREXEVILLE

VIAGEM A CONTREXEVILLE


Ferrraz da Silva
 

 Alugamos uma carrinha toyota hiace, velha, usada, experiente, metemos as malas, boa vontade, a carta de chamada, era Novembro e fomos, fomos por aí acima á voz do comité de geminação irmanados no gosto pelo desconhecido e no desejo de dar vida ás palavras de amizade que o tempo vinha semeando por todo o lado. Estava fresco o 25 de Abril, perto a cegueira do 24 que ainda trazíamos pesado na mente e Contrexeville, dois mil e cem quilómetros, era perto, não era nada, era ali.

  Em Valhadolid, uma hora da tarde, estacionamos na sombra duns salgueirais na margem do pisuerga, estrada antiga, desembrulhamos do papel vegetal um leitão assado oferecido pelo Pedro, amarelo, morno, fabrico matinal, trazido pelo Carlos Alberto que viajava mais cómodo e seguro no xantia da presidência, acompanhando o cortejo á distância, espera aqui espera acolá, de pronto socorro ou carro vassoura em caso de urgência. Como se fosse uma segunda via da excursão que se juntava para guardar, comer e dormir. De tempo a tempos, quilómetros a quilómetros!

  Passamos Irun á tarde e em Bordeux-Cestas era já noite, ao fecho da cozinha, a primeira via já lá estava, foi a correr que nos sentamos, 2ª via, na sala de jantar e tragamos desconfiados o dinner francês da cadeia do campanile. No escuro, noite de breu, ás apalpadelas encontramos os quartos empoleirados numa varanda comprida donde tombavam de manhã gerânios vermelhos e cor-de-rosa. Viemos a ver que eram todos iguais depois duma noite de zuuns de camions na auto-estrada girondina.

  Eram seis, já a viagem continuava pela A 10 na direcção de Paris, por Poitiers, Tours , Orleãs .  Depois, haviamos de fazer isto mais vezes.

  Foi quando atestamos o depósito do gasóleo, adiante do rio loire, que demos conta da fragilidade dos quatro pneus recauchutados da carrinha, descoberta pelo Tony uns dias antes em Vila Nova de Poiares por pouco dinheiro num rent a car clandestino, adaptada ás exigências do nosso magro orçamento feito com poucos pós do dito comité, do turismo, da freguesia, da câmara e do nosso.  

   Quatro mil quilómetros ida e volta valiam a pena, pensávamos, no propósito duma visita á terra longínqua dos povos geminados que já por duas vezes tinham estado entre nós com excursões de quarenta pessoas, uns até tinham estado em minha casa, sem que nós conseguíssemos, retribuindo, colocar o pé na Lorraine, lá no leste, quase Alemanha dentro. Já outros lá tinham ido, é certo, mas mais em representação oficial, que outra coisa não era que atavio de autarcas carentes de purgatório político.

   Coçamos o cabelo na insegurança das lonas donde sobressaiam uns gastos atados de arame, mas nada havia a fazer senão continuar, pé no estribo e fé em Deus, costumávamos dizer uns aos outros num alívio de salvação de aflitos, um grito nacional de epidémicas aventuras, santos e arcanjos pregados de olho em nós, portugueses sem rumo em procissão sem velas. Ou de pneus sem piso, simplesmente.

   Íamos a esquecer, França central adentro na direcção de Troye e de Chaumont,  a própria careca dos pneus, quando  o Júlio , de braços  á janela, rompe aos gritos ,  parem, parem, a porta vai a cair… e caiu mesmo logo  adiante quando encostamos a hiace  numa borda da auto-estrada e a inércia a desprendeu. Uff !

 Meteu-se nos gonzos na primeira área de serviço e lá se atou com uns arames e cordas para seguir viagem aconchegada á ferrugem que entretanto, alertados, íamos descobrindo a par e passo no habitáculo do transporte e nem queríamos acreditar!

Conteve-se a velocidade não fosse o diabo tecê-las, aconchegamo-nos mais entre as encomendas que levávamos para uma exposição que iria haver no casino local e porque o frio é perro e amargo na transição do Outono numa toyota velha sem ar condicionado, embrulhamo-nos em cobertas de artesanato que levávamos para venda na mostra da nossa estada, juntamente com um discurso em francês que ninguém queria fazer.

  Foi depois do almoço numa área da shel que se fizeram os telefonemas familiares. Chora daqui, ri acolá, cada um aliviou a família do que tinha a aliviar, mas o Manuel, já cheio de saudades por um dia fora de casa e de algum salpicão defumado que trazia entalado na garganta, lamentava-se á mulher, choramingando:

   -Isto é tudo muito lindo mulher,  é tudo muito bom, a comida é boa… com muitos molhos, mas passa-se muita fominha…!!!!

   E foi a rir a bandeiras despregadas perante a ingenuidade do exagero que nos metemos de novo ao volante e seguimos, agora sim, até Contrex onde fomos recebidos principescamente pelo comité local, comemos de facto uma boa refeição francesa, acompanhada com bom vinho de Bordéus tudo comme  il faul e dormimos por lá em casa de cada um quatro ou cinco noites.

    Nos dias seguintes, entre recepções, exposição, visitas ao gigantesco engarrafamento da água, a estruturas municipais, e uma noite com merenda na associação dos portugueses, cumprindo o programa elaborado, demo-nos conta da riqueza da pequena mairie (câmara municipal) de Contrex que tinha nessa altura milhões de contos (francos) para gastar em obras e tomamos conhecimento e mais que isso, consciência, dos dois ou três tostões que a sociedade das águas local entregava á mairie por cada litro de água vendido. Uma renda certa tipo torneira num crescendo anual de movimento exponencial.

  Estava lançado o isco e foi porque nos ficaram a morder o corpo e a mente com a noticia dos tostões litro (não se lembram dos seiscentos escudos em duas prestações de trezentos?)
 que recebe hoje a Câmara da Mealhada a importância
que recebe por cada litro de água vendido pela concessionária, fruto do contrato conseguido pela firmeza e argúcia do presidente de então, Marqueiro, pois foi destas viagens que se desenvolveu a ideia e se reivindicou e conseguiu o acordo que hoje vigora. Acordo que não teve nada a ver com quem o veio a assinar, que não mexeu uma palha para que isso acontecesse. Acordo derivado sim das viagens no âmbito da geminação Luso-Contrexeville ,  que hoje beneficia o município da  Mealhada, é bom registar, para quem não sabe e que se traduzirá actualmente em cerca de 70/80 mil contos ano. Coisa que a autarquia devia tornar pública no seu boletim de propaganda oficial e não faz, prefere esconder.

   Há dias esteve entre nós Simone Paulmier e o marido Michael Paulmier, que foram, enquanto responsáveis no Comité de Geminação, os impulsionadores das relações que se mantiveram durante anos e mereciam, nesta sua derradeira visita ao Luso, que amam, ser recebidos doutra maneira. Pelo menos da maneira com que sempre, fosse quem fosse, nos receberam na sua terra!

   E se não fosse por mais, pelos três tostões por litro que o município recebe que passaram, inquestionavelmente, por ela, Simone.

  Mas somos pobres e mal agradecidos!!!! Ás vezes, mal-educados!!!!

  De quelque façon , je vous remercie, pour moi meme et pour toutes les autres ..

  Au revoir, Simone.

  Luso , Novembro,2007

                      lusotemas.blog.com

  
 

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Monday, November 12, 2007

O PEQUENO PIDDAC E A MATA

 

O PEQUENO  PIDDAC   E A MATA DO BUCACO

    Não sei o que se poderia esperar do piddac 2008 para o município da Mealhada para além do constatar que a sua magreza, mas também a sua pobreza, tem sem dúvida a ver com a estreiteza do patamar municipal onde nos inserimos e tem a ver com o piddac a nível nacional, todo ele emagrecido na distribuição, tipo bodo, que se faz anualmente para contentar o país.

     Esperar o contrário é que seria algo de irracional e demagógico no actual estado deficitário em que nos encontramos, aliás todos os dias lembrado ao cidadão no choradinho politico dos estivas da nação, quando a hora da fraqueza os impele a continuar, perpetuar julgam eles, os fardos de todos os outros.

     Deficit que nem parece tão difícil de ornamentar enquanto se tem á mão o prato dos impostos para equilibrar a despesa da balança em permanente subida e um país amorfo para suportar calado a miséria consequente. Empírico!!!!!!! Salazar fazia isto melhor que ninguém, cilindrava em competência os malabaristas de hoje e o resultado viu-se. Só nos deixou pior porque, para além da herança das arcas de ouro, não tinha o benfeitor comunitário a despejar todos os dias dinheiro gratuito nas tetas da nação. Quando acabar esta mama, criadora de maus costumes no dia a dia de alguma gente, vamos ver se voltamos ou não a governos tipo Saldanha, Loulé ou Costa Cabral!

   Porque nos havemos pois de lamentar por não haver mais dinheiro para continuar as flores que tanto enfeitam governantes e autarcas na hora das listagens do voto? Se parássemos com a  multiplicação das fontes luminosas, das rotundas, das piscinas, pavilhões, jardins e estatuetas, muitas delas absolutamente dispensáveis e supérfluas e pensássemos nas pessoas e nas suas dificuldades prioritariamente, não seria coisa muito mais útil perante a emergência do presente e do futuro pouco risonho que amanhã se perspectiva?

  Bem sei que os poucos que governam já conseguiram a liberdade económica que prometem aos outros para atingir os seus fins e por isso estão positivamente a leste do cidadão comum. Também pouco preocupados com problemas pessoais da metade dos portugueses que vive no limiar da dificuldade e da pobreza e muito mais atentos ao próprio percurso pessoal na esperança de chegar a ser qualquer coisa parecido com o bezerro de ouro, que lhe dê direito á mesma estátua que Moisés, baseado na fresca procuração recebida de Deus, deitou abaixo. Excelência que o tempo, e nem é preciso o tempo planetário, vai esquecer com a brevidade no seu nada.

    No piddac Mealhada 2008, cento e quarenta mil euros para acabar uma extensão de saúde que começou por cem, parece insuficiente para inaugurar a obra, o que pode muito bem acontecer no piddac eleitoral que se sucede. De resto, mais dez mil euros para a remodelação dum cinema que vai em quinze mil de dotação é para continuar em banho-maria e outros centros de saúde para o município, são engodos.

   Já o caso da recuperação da mata do Buçaco é mais complicado. Não consta do documento para 2008 e coloca-nos algumas hipóteses que são fruto da pouca clareza dos políticos, muito mais presos ao silenciar dos protestos e da comunicação social, e muito menos ás necessidades e á resolução dos assuntos. Por isso, põem frequentemente os primeiros na agenda politica, os segundos na agenda do esquecimento.

     No Buçaco, segundo as promessas, estão em causa (ou estavam?) um milhão e trezentos mil euros , duzentos e sessenta mil contos , moeda antiga e a primeira via para chegar a eles poderia ser o piddac. Se assim for, ainda que pela sub via do ministério respectivo, coisa que o cidadão não sabe (e pior, não sabemos se os responsáveis que o transmitem saberão) o projecto deveria começar este ano. A não acontecer , pode ser inscrito pela mesma via no ano que se segue mas com atrasos na execução dos programas elaborados que são evidentes. Mas neste caso, pior que os atrasos, são o engano sustentado pela administração durante meses com promessas intencionais que sabiam não cumprir, engodo de políticos apostados em calendários financeiros, cujos métodos não se coíbem de prometer o que não querem ludibriando a boa fé do cidadão. Sendo assim e esperemos que não, pura especulação, como acontece na bolsa ou no mercado do petróleo!

   É exactamente por estarmos tão habituados a comportamentos do género por parte da administração pública e politica, que acabamos por achar natural que as promessas do Buçaco datadas para Abril passem sucessivamente para Junho, de Junho para Agosto, de Agosto para Outubro e é também naturalmente que aceitamos o facto se nos disserem que nem em piddac ou ministério algum existe cabimento para fazer a obra. Um pouco como na teoria de Darwin, a nossa mente vai modificando os genes, neste caso na sua hipotética vertente dos memes, e tudo aceita á luz da evolução!

    Entendendo isto como adaptação genética, ao menos que quem tem os projectos em mãos, (se os houver!) tenha a destreza suficiente para correr no dia dezassete, dizem, de preferência cedo, á Comissão de Coordenação respectiva com a candidatura! É que pode acontecer estar lá montada uma barreira de dossiers a marcar vez com a burocracia dum carimbo de entrada a garantir sequência. Nada que cunhas ou livre arbítrio não resolvam, mas pelo sim pelo não…!  

  Que triste espectáculo proporcionam os políticos que em pindéricas encenações prometem mundos e fundos, para depois de adiamento em adiamento protelarem as

promessas! Tão mau como os catorze mil euros pagos mensalmente ao locutor pisca pisca da estação pública, com a subtracção que nos é feita na conta da edp.

  Coisas d’outra galáxia !                                                                               Outubro,2007

  mealhadatemas@blog.com           lusotemas,@blog.com

Posted by peter in 21:44:19 | Permalink | No Comments »